Viver o sacramento do matrimônio necessita de diálogo. Nele, o casal desvenda o chamado “jardim secreto”, que ajuda na correção fraterna e fortalece a vida a dois

Jorge Abdo

Muitos casais, inclusive nós que invocamos diariamente o Espírito Santo e rezamos de mãos dadas a Oração Conjulgal, recitando o Magnificat, tinham a falsa idéia de que amar era fácil.
Durante uma longa vida em comum, o amor pode crescer se for cultivado, ou caminhar para o desenlace por falta de reflexões sobre as exigências do sacramento do matrimônio. Ainda que o tempo do noivado tenha durado vários anos, não é suficiente para marido e mulher se conhecerem mutuamente. Conhecer-se “de cor”, tudo sobre o côujuge, conhecimento pronto, completo ou acabado, não existe e nunca existiu. Casais que comemoram as bodas de prata ou de ouro, invejados pelos mais jovens, para os quais dão testemunhos, se queixam. Dizem que apesar de conviverem juntos durante décadas ainda não se conhecem integralmente.
E necessário muito diálogo, respeito mútuo, eliminação de comentários sobre possíveis diferenças culturais ou outras, que, vindos à tona, possam ofender a dignidade e a auto-estima do cônjuge. São Paulo, em sua 1ª Carta aos Coríntios, diz: “Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo”. Esses dons diferentes não existem para se afrontar ou para vanglórias, mas sim para se completar, para ser somados numa única carne. Muitas vezes, não se aceitam essas diferenças e até obrigam o cônjuge a ser e pensar como ele ou ela, e que tenha os mesmos gostos e as mesmas atitudes.

Características do amor—São Paulo ensina, também, que “o amor é paciente e prestativo, não se irrita nem guarda rancor. Tudo desculpa e tudo suporta”. Aos romanos recomendou perseverança na oração. O evangelista Mateus nos faz recordar o texto, já lido centenas de vezes nas cerimônias nupciais: “O matrimônio deve ser comparado àquela casa construída sobre a rocha, a qual resistiu à chuva e à fúria dos vendavais e não ruiu”. O padre Henri Caffarel, fundador do Movimento de Casais por uma Espiritualidade Conjulgal, denominou esse diálogo de “Dever de Sentar-se”. Durante essa parada, e a sós, o casal desvenda o chamado “jardim secreto”, espécie de segredo que um ou ambos cônjuges guardam para si, sem que o outro saiba. Vive triste, remoendo magoas sem coragem de revelá-las ao outro. Prefere sofrer sozinho suas frustrações e insucessos profissionais.
Age assim por amor, para poupar o cônjuge. Nessa hora, ambos aceitam, um do outro, a “correção fraterna”. Mateus referiu-se também a essa prática para salvar um irmão: “Se ele pecar, vá e mostre a ele seu erro, mas primeiramente em particular”. Assim a harmonia voltará a reinar no lar, porque desse encontro para dialogar desabafar não sai vencido nem vencedor.

Espelho d’água — O amor fonte de felicidade, e deve ser constantemente renovado e revigorado, desde a data do matrimônio até a data que a morte os separe. Não existe árvore que o não tenha balançado, nem casal que não tenha um dia brigado. Onde reinou sempre o amor e a ternura, sem motivos aparentes, repentinamente, certo dia um ou ambos amanhecem mal-humorados. Essa mudança de comportamento pode ser provocada, dizem os cientistas, por distúrbios físico-psíquicos. Do coração vem a depressão por motivos que a própria razão desconhece. Haverá um amor sempre renovado, se conhecerem um ao outro a cada instante e se refletirem sobre a vida um do outro, assim, como o lago que reflete o céu, assemelhando-o a um espelho d’água. O lago reproduz o jogo de luzes do sol sobre as nuvens em movimento, a sombra das árvores ribeirinhas, ora estáticas outras vezes balançando ao sabor do vento, a revoada de pássaros, a bela alvorada ou o maravilhoso pôr-do-sol. O lago não reflete ou dificilmente reprisa a paisagem que o céu lhe emprestou ontem.

“Jorge Abdo é advogado e membro das equipes de casais da Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho, em Jaú (SP).

fonte: revista Família Cristã